No
sono ele cantava para mim, Nos
sonhos
ele vinha, Aquela voz que me chama, E fala meu nome. E eu deveria
sonhar de novo? Para agora eu encontrar O fantasma da ópera está
lá dentro da minha mente.
Cante outra vez comigo nosso
estranho dueto; Meu poder sobre você ainda cresce E Embora você vire para
olhar para atrás, o fantasma da ópera está lá dentro da sua
mente.
Aqueles que viram seu rosto se afastam com
medo Eu sou a máscara que você usa.
The Phantom Of The Opera...
Vítima do dualismo
Ser miserável dentre os miseráveis —
Carrego em minhas células sombrias Antagonismos irreconciliáveis E as mais
opostas idiosincrasias!
Muito mais cedo do que o
imagináveis Eis-vos, minha alma, enfim, dada às bravias Cóleras dos
dualismos implacáveis E à gula negra das antinomias!
Psiquê
biforme, o Céu e o Inferno absorvo... Criação a um tempo escura e
cor-de-rosa, Feita dos mais variáveis elementos,
Ceva-se em minha
carne, como um corvo, A simultaneidade ultramonstruosa De todos os
contrastes famulentos!
-Havia um cheiro amadeirando mesclado ao destino que me consumia...
Ali pena rua uma garota perambulava, sorria,resplandecia alegria, estava feliz, mas por dentro ela chorava.
Seu corpo magro, esguio, perdia-se dentro da roupa larga.
Exalava o magnetismo de sua presença febril e em seu rosto, lábios cálidos, muitos sorrisos ela mostrava, era a alegria bordada que tanta gente admirava.
Em cada sorriso omitia os sentimentos que guardava, era ali o refúgio de tudo o que nela se encontrava.
Me conti no oceano misterioso que me enfeitiçava, não era o azul que me assombrava, era apenas o que eu via lá dentro que me arrebatava, pois era ali que tudo que ela sentia se camuflava.
Sentimentos que em seus olhos eu em silêncio contemplava, era a essência daquela garota que vinha e cativava.
Em lábios finos a beleza em libido desabrochava, era a malícia que sua alma em existência acarretava...
Em suas mãos magras de dedos longos minha atenção se concentrava. Sua voz me despertava do sonho silencioso que eu mais gostava, pois era ali ao lado dela, que eu já perdida me encontrava...
Uma garota sentada em um banco de pedra, branco, calada e estática, mirando o céu em seus nuances entorpecentes. Contadora de estrelas, domadora de mistérios, amante do universo e suas incógnitas indecifráveis... Sorriso reverso, estancado a dor em poemas de falsas rimas, em pensamentos perdidos e navegantes... No mar do abandono, ela caia como uma naufraga, ela contemplava o céu azul em seus nuances contidos repletos de intriga e discórdia... Seu olhar infiltrava-se por entre as nuvens dançantes mesclando-se com a brisa do fim de outono... Mas enquanto o acaso prepara suas peripécias o destino trama, esculpe a estória fazendo e desfazendo o drama...
A pequena garota tingida de pranto, pelo tempo de tempo em tempo, deixou escorregar por meros instantes seu olhar, do céu quedou-se quase em pedaços no chão, a terra seca, escura, suja... Parou, avistou então, um pobre e desajeitado cão. Era novinho o pequeno, raquítico e doente, havia nele a mesma frieza opaca e disfarçada que ela questionava diante do espelho todos os dias. Era magro, sofrido, desleixado, porém, era inquestionável a doçura que sem querer ele deixava escapar... Ela, temeu a si mesmo pela vontade ambígua de se aproximar, ele temeu a si mesmo pela vontade ambígua da aproximação da ousada e impertinente garota! Seus olhares já tinham se cruzado, era tarde de mais, ela recuou por alguns instantes, pendeu a cabeça pro céu, havia nuvens o suficiente pra lhe cobrir o espetáculo, preferiu talvez equivocadamente, voltar a olhar o pedaço de vida que ainda lhe mirava. O cão estava altivo, tinha a mesma tristeza desesperadora no olhar, no entanto, atiçava a nele a sede do orgulho a torturar. Temeu não a ela, mas a si mesmo, como sempre... Desviaram o olhar, mundos diferentes de mais pra tropeçar, um no outro, um ao outro, foi só a brisa cantar, eles se esbarraram e fitaram-se espantados sem ao menos piscar...
Ela sentiu seu corpo frágil cair ao chão, o pegou no colo, era impensado, apenas o acariciou. Ele espantado, ainda desconfiado trasbordando a soberba que lhe corroia, deixou-se quedar como um doente que era e ela deixou-se olhar como a prisioneira que estivera... Seria possível curá-lo? Ele estava faminto, uma fome voraz, era a vida que lhe negara o carinho, ele recusava, era o que aprendera e assim, deixou-se acarinhar. Todos olharam pro cão com desprezo, era bicho de rua, já criado, já estava perdido, nada se podia fazer a não ser abandonar... A garota em surtos de desespero nem sabia o falar, eles apenas se miravam, ele tinha algo dela e ela só permitiu-se chorar... Feridas cicatrizavam, mas mundo sempre desde que fora mundo sabia diferenciar, ela pertencia a ela, o cão ao mundo e ambos já tinham seu lugar... Fora o encontro dos tolos, doentes e prisioneiros, de si e deles, doa solidão que a dor pôs cortes na carne pra atenuar...
Estações...Talvez já fosse inverno, mas não era apenas chovia, ela não via sol, ele não via ela... Caminharam um ao lado do outro, ela parcialmente livre, ele já talvez próximo da cura... Lacrimejavam poderia ser o vento, se olharam, poderia ser novamente o acaso, se afastaram,isso era vida, choraram, era dor da partida...
Por detrás de exaustos olhos camuflei um sorriso breve, tingido de pranto, torto e opaco. O tempo me cedeu fisgadas suficiente para não mais ouvir o tilintar da bomba relógio aqui dentro.
Acariciar a pela frígida com lâmina mais fria e reluzente é sorrir para a dor e brindar junto a ela o que se faz ausente de si mesmo.
Por que você permaneceu, eufórico, na linha tênue de pensamentos da minha vã filosofia? Caímos sem nos darmos conta... Mãos dadas e olhos imersos um no outro...
Eram em teus olhos que prossegui mirando como quem vê no horizonte o desconhecido nostálgico, resgatando tua essência e acariciando tuas feridas, resguardando os sentidos, era você que me curava...? O aconchego a vida te negara. Há marcas e cortes, olhe-me com cuidado, teu olhar me implora, mas tua frieza ignora,encanta a vida em si que se desflora.
Mas é tua dor, solidão estridente que te encharca e apavora a mesma dor que se esconde por detrás dessa máscara negra que vi centelhas de outrora, e tiro pra admirá-lo antes e agora.
Teu olhar suspenso te traiu, havia vestígios cortantes e dolentes impressos nele e pouco a pouco me partiu... Pedaços... Escassos, nas palavras ácidas que proferiu.
Cedi espaço, o medo não se conteve, pairava e consumiu.
Muros já reduzidos a destroços; abri-lhe minha alma, o peito ainda rubro, mirávamos extasiados e descrentes, não era espelho, mas havia no outro o reflexo de si mesmo.
Todos olhavam e ninguém viu, nem percebi que já te amava; você sabia e sentia e para mim então você sorriu!
"Brindemos nessa noite estática e áspera! Provei naqueles lábios febris a doçura encabulada de um pranto antigo. Preenchi meu pranto cinza, acolhido pelo tempo, com tua dor já enegrecida e cavada pelas mágoas que eu mesma já conhecia. Meu coração fadigado traga-se em espaços ocos, em respostas sádicas, em destroços arquitetados em montes frágeis e sorrateiros jogados ao léu dos meus versos tolos. No auge mórbido do inverso intacto, a noite fez-se presente com suas mãos cadavéricas e aconchegantes, roubou assim, a lucidez restante, emudeceu-me o peito em versos cortantes e regressivos, cantados em rimas poucas o desgosto que os anos bordaram,consumiram, consumaram. Ligados pelo tempo, castigados pelo acaso. Respeitem meu silêncio, ainda permaneço em luto, pereço em ato, desato nó, em dó e em laço. Cortejando em lamento resguardo e imploro, imploro e pereço, invento o que se fora e desfaço o que conheço..."
Não roube dos meus versos as rimas poucas. Não zombe da minha incredulidade tão enclausurada, nem mesmo ouse esmagar meus concertos breves e vãos. Pergunte antes o que está por detrás das cortinas, toque, mas não enforque nelas o meu enfermo coração. Faça delas o véu que te cobre o rosto, as máscaras já se estilhaçaram diante do espelho. Vi então, provei teu encanto e descobri o luto que corrói pouco a pouco cada ilusão. Eu desviei dos teus olhos, prendi tuas palavras em um sopro dócil e febril. Esqueci de onde vieram as rosas que estavam perdidas, esmagadas; atiradas e já murchas encobrindo todo o chão.
Presenteie-me com sua presença. A solidão que devora insaciável de dentro para fora em pedaços poucos e pequenos, contínuos e devastados. Incoerentes. Estéreis são minhas queixas, porém, na mesma forma trágica e displicente que teu fantasma me acariciou, aliciou o que meu já não era. Desmenti cada ausência tua na forma de um sorriso torto e encabulado. Recusei-me a mirar o espelho, pois veria nele minha imagem desprovida de qualquer rastro teu. Engano meu. Meu lado esquerdo sempre ermo e no olhar vago a figura que os tempos me roubaram vagarosamente... São as marcas das noites mal dormidas assoladas em baixo de olhos ocos e opacos realçando o tom escuro das queixas soltas pele e alma, desfloradas pelo outono. A maquiagem insólita da insônia arfante tramando o pranto do meu peito resguardado em seu choro calado, travesso, decompõe-me agora, no real sabor de cada instante...
Eu, com minhas marcas falíveis e instáveis que sempre amaldiçoei inconscientemente as segundas-feiras propus hoje em um ato implícito de descompasso emocional mudar esse estado característico que eu mesma simples mortal resolvi desenhar.
Hoje desenhei um sol, nem pequeno nem grande, apenas um sol exageradamente redondo e amarelo com seus nuances bruscos e marcantes de um laranja intenso e caduco.
Preocupo-me agora ao perceber que nem mesmo olhei para o céu. Insensibilidade minha.
Mas posso afirmar como quem afirma a própria sanidade que ele estava cinza, todavia, como minhas afirmações deveras pendem para o incerto eu insisti atrevida a desenhar o meu questionável sol.
Meu sol em seus traços e rabiscos escapou de minhas mãos demasiadamente magras; pensei incrédula que naquele instante algo se quebraria.
Sua beleza sutil pintou no ar uma mescla de cores e lembranças, voláteis e ligeiras...
Meu sol rolava cáustico e desprovido de emoção enquanto eu, pasma, corria em sua direção, em uma direção qualquer, cada passo um espaço, em cada suspiro, um arrepio e devastação.
Caminhei exausta por ruas de horas e na esquina distraída do tempo deparei-me então com certa ilusão.
Ela caminhava errante e alegre, absorta com a mesma indecifrável expressão que me lembrava uma figura que meus pensamentos desnorteados buscavam em vertigem.
Tinha meus cabelos, meus olhos, corpo e expressão, era a garota de tempos passados, o eu de outrora que me mirou estática e por meros instantes perdi o chão.
Infantilizada, perplexa... Talvez fosse miragem, algum reflexo de um espelho enganoso que se quebrou em pedaços e em estilhaços me dilacerou...
Olhei em sues olhos aflitos e suspensos em alguma alegria de brilho primaveril: vi nela o que eu fora e ela viu em mim o que se tornaria. Não houve riso nem choro, apenas espanto, silêncio e distorção.
Havia apenas um batimento, quem sabe fosse dela ou ainda fosse meu. Algo palpitava frenético em uma nostalgia compassiva e insinuante, era apenas um coração. Dois lábios, um riso.
Havia uma fita sedosa e brilhante que nos unia; presa em uma das pontas um laço requintado entrelaçava seu pulso em um tope acanhado.
Suas mãos eram belas, havia um encanto digno de ser admirado, admirei-as por instantes incontáveis. Seguindo o laço negro com meus olhos hipnotizados pude ver que no outro lado da fita outro tope emaranhava-se discreto e trabalhado, rodeado em meu pulso insolente com tiras finas na pele seguindo até as mãos.
Paralisei olhando minhas mãos, a garota do outro lado vez o mesmo e demonstrou tal e mesma admiração. Pude ver nela o que ainda havia em mim e ela viu em mim o que sempre pertenceria a ela.
Um paradoxo que já não se anula mais, somente se une desfazendo-se continuamente...
Ela então sumiu dos meus olhos ou talvez eu tivesse sumido dos olhos dela, eu estava em algum lugar do seu futuro como uma ilusão momentânea, e ela estaria em algum lugar do meu passado como um fantasma que surgiu assim como desapareceu...
-Pegou meu sol, quebrou meu dia e com a fita negra emendou o que já não havia, o mesmo que ainda era e o que restara do que ainda se consumia...
Não, eu não lhe pedi pra ser uma garota engraçada ou algo do tipo, uma contadora de piadas que roubasse dos meus lábios algum sorriso qualquer, mas eu era eu mesma em minha nostalgia extraviada e cinza, eu apenas queria estar ali ao seu lado olhando o horizonte ou até mesmo o céu azul ainda encoberto por nuvens ocas e rasas como meus sonhos, meus pesadelos, um tormento desconcertante que eu ainda hei de lhe contar, não agora, não hoje, mire o arco-íres primeiro e ouça o dia findar...
Eu previ o espaço e a distância, mas o tempo sempre me pareceu um mostro devorador de almas, sem rosto e perdido em si mesmo, mas com olhos famintos como a presença sutil de uma criança e beleza talhante de um velho. O encanto, onde estaria esse personagem fictício que bordei em meus meros anos? Talvez o tivesse perdido em algum daqueles dias repletos de flores, flores essas que você em um dia chuvoso e calado me presenteou, estaria ele escondido em um canto esperando a partida sem olhar a sua volta? Apenas umagarota pintada à aquarela exposta ao tempo, transbordado de chuva e choro...
Em cada expressão de traços infantis e falantes eu pude imergir na escassez involuntária dos seus segredos, eu os havia roubado, não pra mim, eles ainda estavam ali e já me pertenciam, como a estrela escolhida a dedo que todas as noites é admirada e amada como uma relíquia que só estando distante possui um dono...
Não te amo,temo, meu amor é tempestade! É dor solene que bate à porta e logo invade, Não tema a noite ébria que em tua ausência enferma reinou em claridade Não pergunte se é verdade ou deduza meus timbres vãos, já não acolho nem mesmo a esperança deste sonho cálido que escorre fatigo por entre minhas mãos Ouçamos a música dos loucos no silêncio que me pertence, presente teu, eis o meu passado; é nele que perco as horas que me restaram, vou arruinado a ferida ainda rubra em teus doces passos lentos, distantes e talhantes. Cercaram-me os dias na vaga idéia, pendulo do alvorecer que já não vive, vertigem já anestesiada em pranto mudo a esmorecer é tua imagem turva e esvoaçada que insiste em se esconder...
“Há um buraco em cima do muro, em frente ao poço e em cada poça atenta e falante que ela em vão tentou esquivar. Há uma curva cantante assoviando a canção dos tolos. Ela viu a rocha despedaçar-se em si e nela, ela trincou a flecha em finos e traiçoeiros pedaços cortantes, em cada pedaço ela então se desfez e correu, na chuva, em chuva em pranto assim ela sorriu e calou... A moça despida de si desceu a estrada atenta em seu desalento insano e infantil, caminhava descalça e calada sucumbida em seu próprio inferno de risos e versos. Não, o sol não surgiu, mas a chova cessou. Não, não cessou! Não é mais o céu que chora, é o vaso de vidro que escorregou, caiu e quebrou... Sim, alguém tropeçou! E no cinza fragmentado do entardecer ouvia-se apenas seus falsetes roucos e desafinados lavados a dó ecoando em sopro unindo-se apenas e somente em seu mundo ali tão frágil e só... “
...Eu fingi não ver o céu nublar, a chuva aproximava-se eu bem sabia, com ela a nostalgia em seus nuances me consumia em suas gotas rasas e cortantes, a escassez dos intervalos roucos da minha ânsia resguardava o intrépido vazio onde o amargor insistente infiltrava-se pela pele fria,enclausurada alma que se esvaia, a dor suprema que fatigava o ser despia os fantasmas de outrora, ensurdecendo o compasso frenético dos ponteios rastejando e levando consigo a miséria espessa de cada hora, assim, o meu breve silêncio confundia-se com a sua frívola inexpressão, pêndulo de palavras vãs. Indícios da espera infinda corroendo o abismo que ainda posso sentir, caindo e estando, esvoaçando a certeza em raios finos e breves, explodindo febris na névoa densa que a própria amargura molda, constrói e decompõem...
“O mundo está roubando minha essência, quanto mais próximo, mais distante, como abrir as janelas e fechar os olhos. Assim, em cada paradoxo refreiam-se os dias, decompondo cada passo, passo a passo; transloucados e frágeis, em sua própria insignificância... Brinquei com o horizonte, eu era a linha tênue e retilínea transfigurando a estúpida aurora. A dor pueril cambaleava em frenéticos espaços, em impasses constantes. Deslizavam as gaivotas inquietas pelo céu bordado de puro rubor em linhas irreverentes, amando silenciosas o esplendor das trágicas horas... “
“Seu rosto quase inexpressivo deixava escapar acanhados traços; implícitos de alguma emoção, que ali estática mirando paciente e extasiada eu tentava decifrar. Nesse estado silencioso e caótico deixei-me quedar, deixamo-nos quedar. Você, mirava o vazio ali diante dos seus olhos assolados de algum pranto mudo. Eu, brincava distraída, ali concentrada, apreciando calada num jogo tão íntimo de adivinhar, adivinhar o que você nem mesmo supunha sentir...”
Roubaram-lhe um pedaço! Mas ouça-me, nunca houve um pedaço para ser roubado, apenas o tácito espaço oco e resguardado ali intacto, intrigante em sua inquietude, a iniquidade errante em suas pausas, suspenso e quebradiço. Apenas amargura, resquícios imersos em águas turvas, atrás do muro, atrás de cada palavra concedida e cada verso negado. São pedras acinzentadas em sua morbidez cutânea, frias e sem vida.
Desfiaram sua alma vagarosamente com o cuidado pernicioso dos loucos, em finos fios agudos e cantantes. Cortes que já não sangram! Dançaram dúbios unidos em nós, nós cegos, apenas nós...
Em cada sorriso primaveril o traço torto da frieza implícita se esvai, contrai e corrói. Em lábios sutis inflama-se o caos, em palavras tais desmente a inocência que dias soturnos roubam-lhe a voz, desfigurando-lhe a paz... Não são palavras que trincam os elos, o silêncio estático, esse sim, trai em sua destreza, desfaz-se em nós e em nós então se desfaz... Assim, resvala-se cada suspiro em súplicas presas, debruça-se nostálgico sobre a mesa maciça, traspõem suas tristezas em palavras a sós; anestesiado, mira a paisagem lá fora, a dor que devora é mesma que inspira, sorria para o dia nublado, escreva e entrelace o compasso, passo a passo, a ânsia lhe enfeita, quieto, instável e calado...
Lixo é lixo, com seu odor repugnante e suas feições horrendas e desprezíveis. Lixo é lixo quando é jogado no lixo, ou ao léu, é renegado e acusado... Chama-se lixo por que lixo agora é. É solitário, calado e confuso como qualquer outro lixo, por que é simples e complexo, singular, lixo é. Está onde está, reconhece e não despreza o que é: lixo.
Lixo teve um sonho, um sonho cor de rosa. Lixo dorme, sonha e morre. No sonho ele era uma bela flor delicada e aromática como a essência sublime dos anjos. Anjos sim! Anjos de ‘deus’, aquele ‘deus’ daquele ‘céu’. Aquele céu azul que poucos contemplam. A frágil flor fora admirada, amada, cheirada e cortada. Arrancaram-lhe a vida pouco a pouco em um ritual solene e cruel. Colocaram-na em um aconchegante copo transparente com água límpida e fresca. Feixes encabulados de sol entraram pelas frestas da janela semi-aberta e abraçaram-na num doloroso adeus. Ela murchou lentamente, murchou sorrindo, então, ela morreu.
Lixo acordou assustado com um sorriso pasmo que deixou estar e agradeceu ao deus do lixo por ser lixo. Lixo que é lixo não é amado, lixo só, tão somente lixo. É lixo por que fora descartado, a vida que lhe sustenta é o desprezo que lhe foi presenteado. Lixo não conhece tal amor, ama a seu jeito, seu jeito de lixo. Lixo não joga fora, ele já está fora o suficiente para amar o que fora como ele está. Lixo que é lixo é livre o bastante para amar o que lixo não é.
Ele zombou de mim num sorriso doce e infantil, pois lixo era lixo o suficiente para ter seu orgulho, seu encanto. É o menosprezo talhante que cega, faz viver o que se repudia; já a afeição, em seu paradoxo e seus tantos contra pontos, ama tão somente o que conceitua como belo, apenas ama a seu modo. Ama, estraga e faz morrer...
Minha dor sai em forma de palavras e meu ódio também... Não invada minha tristeza, meu círculo perfeito, apenas aqui dentro desta mente claustrofóbica e variante, não temas pelos meus medos, A dor que açoita é escudo que protege, contemplo, paro e choro, calada,escondida, quieta e só... Por dentro, cravo as unhas, na pele, rasgo a carne, marcas na alma, estrago aqui dentro... Rostos disformes, apenas rabiscos, linhas desalinhadas, pintadas de cinza, borradas ao relento, vagas idéias, traços tortos, contornam as formas e desfazem-se em sorriso, transpondo nele a dor que devora... Espere pela noite, ela não dorme apenas se esconde vigia a insônia indócil de olhos famintos... A noite te espera, me espera e não te encontro, a noite calada, jogada nas frestas talhantes da escuridão, por detrás de palavras ocas, torrente de solidão, abraçar tua opaca imagem e assim esquecer... Que o olhar que fita é o mesmo que ata, encanta e faz morrer.
Não.Eu não queria falar sobre meu dia, nem sobre essa dor expansiva misturada a um aperto apreensivo aqui dentro. Eu bem que podia sentir a ardência cálida e ríspida acima das minhas mãos, mas permaneci imóvel admirando a obra de arte que o vazio transpôs diante dos meus olhos...
A dor sempre provou minha existência... Somente a dor é capaz de fazê-la sentir-se viva. Aquela voz novamente em minha mente sussurrava com seu tom melodioso e sensual. Uma voz sem sexo, sem forma ou cor, mas eu lhe daria um cinza prateado adornado de mistério e volúpia. Eu queria estar próximo a ela. Podia sentir sua cálida presença naquelas linhas retilíneas e disformes que a lâmina prateada desenhava, deslizando indócil sobre a pele pálida deste ser arquejado de cólera ...
O vermelho,doce vermelho, o doce despertar tortuoso e estéril, onde encontro apenas a relutante ânsia a ser moldada. A lentidão sombria de um ritual desconexo onde apenas a figura deformada de uma sombra sem rosto reflete sua própria imagem opaca diante do espelho embaçado da eternidade. É apenas fome de veneno rubro. A fome de um ser sem asas. Sua sina é alimentar-se de si mesmo na destruição que lhe aquece. Pintar a própria imagem enquanto sua alma desaparece... É decadência, é infortúnio! A decadência contida na simples desarmonia arquitetada por mãos fantasmagóricas, roubando pouco a pouco a vida que dela mesma o ser se alimenta. Resquício latente da espera caustica. Uivos e ecos vorazes, nus em meio ao breu da inconsciência onisciente. Eis a introspecção quântica da vida eminente, farpas desfiando cânticos do algoz sinistro que espreita a presa livre, acorrentada em seus próprios deslizes. Não há pecado. Está no Karma! Não há culpado, está na lama! Não há certeza, é tua alma que te condena...
Burlar a sanidade e esbanjar personagens diante da razão, razão pintada de ouro, ouro dos tolos...! O valor de um tesouro está na íntima certeza de sua importância!
“Eu só queria sentir o cheiro da chuva, aquele cheiro de terra molhada que impregna na mente e faz sufocar...”
Saudade... Hoje me peguei pensando incoerentemente naquele sorriso. Um desconhecido fez-me relembrar a tua voz. Superficialmente rouca com um timbre sóbrio, e por vezes sombrio, que sempre deixava no ar um rastro inteligível de mistério e assombro, incoerência relutante e raquítica... Encontrando em tênues lembranças tua presença intocável como um retrato vívido impregnado em minha mente, uma imagem estilhaçada com seus pontiagudos fragmentos dispersos no próprio ar. Não houve dor em tal momento, mas tal momento fez-se dor, estática, irremediável, insolúvel, como o fel rubro do crepúsculo insolente, um altar penoso que me deixei contemplar naquele instante ríspido e silencioso, essa figura insólita dos meus decrépitos disabores, indistinta forma, desnuda cor, lúgubre fantasma, despedaçaste minha alma pouco a pouco e sem pudor. Volte ao vazio que te pertence! Já tua ausência ainda completa o vazio que me restou...
Eu lhe falei das flores, eu lhe falei dos meus tantos dissabores. Eu decaí e sorri, você passou e olhou, também sorriu, Esculpiu a vida ali tão meramente descontente e infantil; Olhou o horizonte rubro e fingiu que nem viu. Você abriu tantas portas, você jogou todas as cartas. Uma por uma pela janela em uma tarde cinzenta adornada de espera, Pairando no ar como folhas ao vento, isenta de vida, Adormecidas no lixo, sem dono ao relento... Ao relento correu, na espera fiquei, na tristeza debrucei, na insônia lhe encontrei e juntos caímos! Repeti aos céus tantos versos e nem se quer nos vimos E no decair da noite serena, raquíticos emblemas, E novamente sorrimos... Você me falou da paz, despertou como um anjo decaído E revelou que nunca olha para traz, Que tudo acaba e tudo queima, Mas sempre se refaz: mentira! Revelou-me alguns dos teus mais sombrios segredos, Deduziu as minhas tantas quimeras, Reluzi o findar ta sua incontestável espera e sufoquei a vaia vã, Solitária no palco,mirando a inteligível platéia.